.respiração boca-a-boca.
Mas, garotada, esta é uma história sobre perder, ganhar, perder novamente e ainda assim sair ganhando.
Na moral, tipo. Porque é assim que são as coisas e tudo mais. A vida e tal... e se você não sabe como dar seu jeito, tudo o que posso fazer é lhe passar a minha grande lição de moral.
Então, vejam só. Vinte e dois anos atrás, existia essa casa ao lado do meu prédio. Uma casa
super-que-demais. Tinha a casa onde as pessoas moravam, um barracão aonde essas pessoas iam nos momentos de fazer coisas esquisitas e pouco admiráveis, um pátio com um marreco e uma tartaruga e um monte de cães, uma árvore que servia pra gente subir e descer incansavelmente, um campinho de futebol e um galinheiro e um monte de espaço sobrando.
E eu, da minha janela, realmente admirava essa casa. Ela era tipo como um Éden do grande cacete; como a ilha de Robinson Crusoé, a gruta de Tom Sawyer ou como a
linha-do-fim-do-mundo para todos os idiotas que ainda não sabiam que o mundo era redondo.
Porque era assim, tudo o que eu imaginava era imaginado nessa casa. Depois de ver "Assassinos Por Natureza", eu sabia que iria passar a vida matando e torturando pessoas e que iria esconder os corpos no meu barracão. Na época do futebol, dos campeonatos metropolitanos, tinha certeza de que seria um atleta muito melhor se tivesse o meu próprio campinho. No tempo das bandas, todo mundo sabia que eu precisava do meu próprio barracão para montar o meu próprio estúdio encapetado. E quando conheci aquela garota
super-e-inacreditavelmente-demais, não havia a mínima dúvida de que iríamos nos casar naquele pátio, com todos os animaizinhos gays olhando e os passarinhos cor-de-rosa cantando.
E, também, e principalmente, eu morria de vontade de ser o dono daquele marreco.
Mas, aí, eles vieram e destruíram com a casa. Primeiro começaram devagar, com umas marretas, tentando tirar os canos e a fiação pra vender por aí. Enrolaram por quase vinte dias, derrubando menos que uma parede por semana. Mas não demorou muito para, numa manhã de segunda, vir um trator e destruir com tudo em algumas poucas horas. Sobrou só o solo vazio e aquele monte de árvores que a casa costumava esconder.
...e no dia seguinte vieram uns sujeitos com uma serra elétrica e cortaram as árvores.
São incontáveis as memórias que tenho nessa casa. Eu vivia pulando o muro. E espiava as pessoas que moravam lá, brincava com seus animais e - principalmente e mais do que tudo - subia e descia incessantemente da árvore deles.
De vez em quando, mas apenas de vez em quando, até roubava alguma coisa que me atraía. Tipo um Comando em Ação esquecido no pátio ou algum utensílio doméstico que me parecesse muito
super. E se me perguntarem, com toda a sinceridade do mundo que acredito ter subido naquele telhado e entrado naquele sótão infinitas vezes mais que qualquer um dos moradores da casa. Sabe como é..., eu fiz xixi na caixa d'água deles, porra.
Mas, hoje, a única coisa que sobrou foi um enorme lote vazio e um montão de árvores mortas espalhadas por lá.
E vou te contar, se tivessem me avisado antes que um lote vazio com um monte de árvores derrubadas é essa uma coisa tão fudidamente legal, eu mesmo já teria demolido com aquela porra de casa há muito tempo atrás.
Porque mesmo que a maioria das pessoas veja apenas um grande espaço de terra infértil com algumas várias árvores mortas secando ao sol, o que eu vejo é um oásis de infinitas oportunidades.
Sinceramente, foda-se aquela merda de casa. O lote vazio é incalculavelmente melhor. O lote vazio é como se fosse a porra do meu Vietnã privado e pessoal.
Nem dá pra comparar. Se antigamente invadia a casa para ver outras pessoas peladas, hoje posso eu mesmo ficar em toda minha
peladice por lá. Porque, por mais inacreditavelmente lindo que isso seja, a grande verdade é que absolutamente ninguém além de mim parece se interessar por aquele maldito lote baldio.
No mais, só é uma pena que as árvores derrubas estejam secando tão depressa. As folhas verdinhas e úmidas realmente davam um toque ao lugar.
Mas se isso é uma grande merda, pelo menos é uma motivação a mais para o meu próximo projeto. Porque, cá entre nós, seria realmente
algo se aquele lote fosse transformado no palco de um imenso e inacreditável incêndio - e sobre isso, só conta contra o meu imenso cagaço de terminar encarcerado como incendiário.
Mas um dia ainda vai.
E a lição... bem, a lição é essa. O mundo é uma bela duma vadia... e por mais que faça pirraça de vez em quando, ninguém se habilita a um sexo anal como a nossa garota.
E também que lotes vazios são quase tão legais como
Tacos, Burritos & Nachos.