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galináceo.

Pois então. É de se entender que, depois de me ver obrigado a voltar com o rabo entre as pernas para BH, eu estivesse todo tristinho e desiludido... tipo aquelas músicas que inglês adora ouvir.

E, sabe como é... para curar essas dores cor-de-rosa nada melhor do que o Gávea Dois.

Mesmo já saibam, vale lembrar que o complexo do Gávea é o mais novo protótipo de favela da região de Belo Horizonte / Vespasiano. É o lugar que, quando chove, ainda não acontece de negô morrer soterrado - mas sobre todo o asfalto virar barro e a região inteira fica ilhada, isso aí eu posso confirmar. E daí, então, que mais-ou-menos recentemente meu pai adquiriu uma casa de veraneio no segundo loteamento do Gávea (o Gávea Dois, se ainda não sacou).

E se tem um lugar que eu não canso de curtir é lá. Muito melhor que Obra, Blackmail, Bolão e/ou o caralho-a-quatro.

Mas, continuando... Para afogar as mágoas e tudo mais eu subi lá para o boteco da Paula. Bem lá no finalzão do bairro, onde já não tem mais asfalto e os traficantes pé-rapado vão se esconder dos homens. Daí, entre uma cerveja e outra, o cachorro de três patas (e sem um nome) continuava a lamber o saco; o cavalo da família começava a se engraçar para cima da mula do frete; e eu continuava a contar para os bêbados sobre como é viver na cidade grande.

Então a Paula, sendo essa pessoa muito gentil e tudo mais, veio fazer observações sobre a minha falta de ânimo. Disse que queria me mostrar uma coisa lá dentro. Ah é?, a Pit-bull deu a luz?, nove filhotinhos!... que demais! - eu fui dizendo, tentando disfarçar a minha total falta de interesse nos cachorrinhos. Aí, enquanto dava uns oi para a molecada que nadava na caixa d'água, vi o bicho numa gaiola pregada no muro. Esse aí é o meu galo de briga, já faz dois meses que venho treinando ele. Porra, que demais... que demais mesmo. Galo de briga, hein?

E ela decidiu me dar o galo de briga. Disse que eu era um rapazinho muito simpático e tal, e que poderia me dar o galo sim - já que, na verdade, ela nem andava com tempo para levá-lo na rinha.

Eu paguei as cervejas e voltei com o galo para casa do pai. Não com ele embaixo do braço; peguei uma gaiola emprestada e acomodei o bicho direitinho - porque se tentasse colocá-lo embaixo do braço, ele iria me bicar, arrancar minhas pernas e me chutar o saco.

Liguei para a mãe e avisei que iria chegar um galo em casa. Quando avisei que não iriámos nem fritar ou cozinhar o coitado, ela me disse que o nosso apartamento não era lugar para porra de galo nenhum. Assim, e com um aperto no coração, eu tive que deixar o galo lá pela casa do pai.

Quando cheguei em casa ela me perguntou sobre que diabos de galo eu estava falando no telefone. Eu disse que era um galo de briga. Mas, ô porra de moleque irresponsável, animais tem direitos. Para que diabos você foi pegar um galo de briga? Pra quê? Pode ir tirando o cavalinho da chuva e esse sorrisinho besta da cara porque eu te proíbo de levar esse galo para brigar seja aonde for. E eu respondi que tanto faz.

Na semana seguinte passei no sex-shop e comprei todo um arsenal de coisas masoquistas para começar o treinamento do meu galo. Defini que o nome dele seria Sr. Laranja e cheguei lá todo empolgado, já cantando Eye of the Tiger e divagando sobre a técnica do polir/lixar.

Só que, claro, começaram os problemas: eu não tinha outro galo de briga. E, em toda minha ignorância, não sei como treinar um galo de briga se não for colocando o bicho para brigar.

Daí, diante da escassez de galos, resolvi que o melhor seria trabalhar com o que tinha em mãos. Peguei meus dois irmãozinhos adotivos e coloquei o galo para correr atrás deles. E, porra, como aquele bicho corre. Com as asas abertas, fazendo um barulho estranho e correndo como se tivesse feito cocô nas calças, o bicho alcançava rapidinho os moleque e voava no pescoço deles e ficava bicando o cocuruto dos pobres-coitado. E, claro, depois de derrotados incessantemente, as duas menininhas começaram a chorar. E, sabe como é: quando o filhinho começa a chorar a mamãe vem correndo.

A namorada do meu pai disse que não queria mais saber daquela merda de galo na casa dela. Que eu não podia usar os filhos dela como saco de pancada porra nenhuma. E que aquela porra de galo passou a semana inteira assustando a cachorra e que agora ela não consegue nem mais sair do porão de tanto medo.

Sem muita opção, eu coloquei umas correntes e uns pedaços de metal enfezados nele e soltei o galo em um dos lotes baldios do bairro. Não estava preocupado, pois ele já me parecia grande e mal-encarado o suficiente para conseguir sobreviver sozinho até a minha próxima visita.

E ia tudo muito bem até que ontem de tarde a namorada do pai me liga. Que o galo anda correndo atrás e bicando todos os garotos do bairro, e que tá todo mundo puto com esse galo e que é bom eu aparecer logo por lá para dar um jeito no meu galo logo, porque senão as mães vão descobrir que fui eu quem soltei o galo no Gávea Dois e vão cortar o meu peru na próxima vez que der as caras. Então, tipo, tudo bem; assim que der apareço aí. Quinze minutos depois o Juninho - o filho da namorada do meu pai e antigo instrumento de treinamento do galo - me liga perguntando se pode levar o galo para a escola amanhã. Porque ele quer dar um cacete em um garoto que andava enchendo o saco dele. Por mim, se conseguir pegá-lo, você pode fazer o quê quiser - menos matar ou abusar do galo.

E tuuuudo bem...

Até que hoje, na hora do almoço, enquanto via o compacto da vitória de 4X1 do Galo sobre o Mineiros (quanta coincidência), me liga a diretora do colégio do Juninho. Ela disse que eu sou um filho-da-puta irresponsável. Perá lá, vai com calma. Que a droga do galo havia pulado da caixa no meio da aula, arrancado os óculos da professora, enfezado com meia dúzia de alunos e fugido da sala e se trancado no almoxarifado e aberto e virado toda maldita caixa que havia por lá e depois fugido enquanto defecava por toda escola. E que, também, eu tinha que tomar uma providência com esses porras dos meus irmãos, que só brigavam e arranjavam confusão. E desligou.

O galo continua desaparecido. E segundo informações me passadas por telefone por alguns dos moradores do bairro, a mãe de uma das alunas quer a minha cabeça por causa do meu galo ter arrancado um naco do dedinho do pé da filha dela.

Agora, então, eu tenho que sair para ir lá no Gávea Dois e resolver toda essa situação do galo. Porque, sabe como é, eu sou uma pessoa responsável e tenho lá minhas responsabilidades para resolver.
::. by Marcel is a Fag. . 23.3.06 . 16:11 .::